A ignorância é a mãe do atrevimento
Apesar de que a Teoria da Evolução de Darwin seja uma das teorias mais sólidas, inteligentes e coerentes da história da ciência, ainda existem alguns coletivos que se negam a aceitá-la como verdadeira, mesmo que de forma parcial, se amparando no criacionismo (os menos lidos) ou no desenho inteligente (os que leram um pouco mais). Este artigo é dedicado para o segundo grupo, pois depois das estupidezes que li hoje mesmo no NDig, suspeito que o pessoal do primeiro requer de uma instrução prévia muito bem elaborada que explique a inexistência de seres míticos como Papai Noel, Boitatá e Seu Sete da Lira, ou simplesmente tenha deixado de escutar os razoamentos externos de seu próprio cérebro.O desenho inteligente fundamenta sua tese em que o mundo em geral e as formas de vida em particular possuem tal grau de complexidade que isso evidencia uma clara intenção ou direção da natureza, bem como um desenhista inteligente prévio, um planejador. Esta entidade, por suposto, deve ser Deus.
Este argumento, chamado teleológico, remonta-se à antiga Grécia, mas seu proponente mais popular talvez tenha sido o teólogo inglês William Paley, que empregou a famosa analogia do relojoeiro: imaginemos que passeamos pelo bosque e encontramos um relógio jogado no chão. Bem como é evidente que tamanha sutileza técnica como é um relógio possui um construtor e não pode ter sido criado por acaso, o mesmo deve ser aplicado à avassaladora complexidade natural que nos rodeia; por exemplo, a de um olho humano.
Ironicamente, esta analogia do relógio remonta a Cícero, em cuja época os relógios eram de sol. No entanto, a proposta de Paley, bem como todas as propostas teleológicas, incorre em um erro crasso básico: Qual é a probabilidade de tal complexidade? Como sabemos que algo é muito complexo para ter surgido espontaneamente? Qual é a origem de dita complexidade? Os criacionistas explicam a complexidade das formas vivas, que contemplam como absurdamente improváveis, e postulam por isso um criador. Mas que este criador tenha que ser muito mais complexo e bem mais improvável que as formas de vida que criou não parece lhes preocupar. Aplica-se aqui o conhecido adágio: "A ignorância é a mãe do atrevimento".
Não seria natural questionar o mesmo do criador que de suas supostas criações? Colocando sobre a mesa uma carta recursiva similar à jogada contra o argumento da causa primeira, perguntemos sobre a origem da complexidade do criador. Como surgiu? Existe toda uma hierarquia de criadores, cada um criado por um criador de ordem superior, e todos eles, exceto os mais inferiores (nós), criadores por sua vez de outros criadores de ordem inferior? Esta pergunta é em geral, lógico, respondida com anátemas.
A mente humana tende a atribuir explicações teleológicas às coisas que não entende como funcionam, bem como propósito e intenção. Mas a ciência permite despejar a incógnita e reformular facilmente a explicação a termos não intencionais.
Por exemplo, um termostato tenta manter a nossa casa em uma temperatura constante. Quase todos sabemos como funciona realmente um termostato -quando a temperatura ambiente cai, um metal se contrai mais do que o outro (princípio bimetal de termopares) e abre um interruptor que desliga o ar condicionado-. Desta forma ninguém atribui intencionalidade ou o poder de Deus ao termostato. Nem aos metais, a não ser que seja um débil mental.
P.S.: Por favor, evitem as susceptibilidades religiosas e demais xiliques com a palavra "ignorante" que antes de ser um insulto é um sinônimo para aquele que ignora. Existe até uma famosa frase de Einstein que diz: "Todos somos ignorantes. A diferença é que nem todos ignoramos as mesmas coisas".
